E o quico som tem a ver com educação ambiental?
Talvez muitas coisas.
Aprendemos a ignorar o dia-a-dia urbano. Não ouvimos mais.
Na verdade, ouvimos sim, mas colocamos fones de ouvido para ouvir coisas melhores.
Os sons podem não ser agradáveis. Podem ser muito altos. Embaralhados. Um som de falante-passos-de-salto-urro-ônibus-carro-moto. Sem distinguir as nuances, as profundidades. Fica uma grande parede sonora (lo-fi).
Nada nos chama a atenção sonoramente, a não ser quando não conseguimos lidar com o incômodo ou quando há algum 'ruído não-diegético'. Um som não usual no entrelaçamento urbano. Um som de pássaro no meio da Avenida Paulista. Ou um grilo no meio do mercadão. Tá ouvindo?
Certas paisagens sonoras estão extintas ou ameaçadas, como plantas ou animais que compõem o seu organismo vivo. Aqui, todos arredores também influenciam.
Os relatos da visita do pessoal do BioLAbI a parque ecológicos para um mapeamento instiga algumas questões. Desde uma mudança da temporalidade, da escuta de diversas nuances, como a ausência da correria sonora diária implica em um resguardo.
Não podemos fechar as orelhas como fazemos com as pálpebras. Às vezes nem nos reconhecemos como ouvintes e, mais comum ainda, enquanto agentes sonoros. Falou?
Experiências pessoais, pesquisas acadêmicas, diário de produções. Tudo que parece ser um pouco distante, ainda mais sobre som, áudio, paisagem sonora - controlada ou não.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Entrevista com Murray Schafer
Acabei de achar essa entrevista com meu guia espiritual. Paisagem Sonora, sons, McLuhan, ruídos, ecologia acústica.
Está em inglês, apesar dos intertítulos.
Ruído diegético
Não percebemos muito bem o meio sonoro. Schafer já escreveu que aprendemos a ignorar os 'ruídos', e percebemos somente que um ruído definitivamente existe e está atuando no ambiente quando ele não faz 'parte da diegese', não é um elemento do dia-a-dia.
Os sons cotidianos e frequentes ressaltam quando param. Ou quando o som pertence a outro lugar. Parece uma questão quase cinematográfica.
Fica aqui um exemplo do "Era uma vez no Oeste", dirigido por Sergio Leoni, que traduz isso.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Câmara anecóica ou semi-anecóica
O silêncio não existe. A câmara anecóica apenas deixa o som com menor intensidade.
A vivacidade dos arredores não invade a câmara. Relatos dizem que as palavras caem como blocos sólidos no chão. Outros, como o de John Cage, que chega-se escutar o som do próprio sangue circulando e do sistema nervoso em plena atividade.
Os dois relatos parecem assustadores. Tanto que fui procurar imagens da câmara anecóica. Não achei a imagem menos assustadora: claustrofóbica como a câmara configura o próprio som em seu interior!
As imagens estão diretamente ligadas à url original. Pra ver o site de onde vem é só dar uma olhada.
A vivacidade dos arredores não invade a câmara. Relatos dizem que as palavras caem como blocos sólidos no chão. Outros, como o de John Cage, que chega-se escutar o som do próprio sangue circulando e do sistema nervoso em plena atividade.
Os dois relatos parecem assustadores. Tanto que fui procurar imagens da câmara anecóica. Não achei a imagem menos assustadora: claustrofóbica como a câmara configura o próprio som em seu interior!
As imagens estão diretamente ligadas à url original. Pra ver o site de onde vem é só dar uma olhada.
sábado, 24 de julho de 2010
O Softspace e o espaço open source
O espaço pode ser encarado como um computador: possui uma parte rígida, o hardware, e todos os programas que animam essa parte, o software.
O hardware de um espaço pode ser as paredes imóveis, chão e teto. Podemos animar esse espaço, e fazemos isso todos os dias: ouvimos música, cozinhamos, colocamos essências, pintamos e decoramos, adaptamos e animamos o lugar para atender nossas necessidades e desejos. Essa é a parte que pode ser um software.
Não se pode planejar um espaço fechado e empacotado para o usuário. O usuário tem que ser visto no processo como um co-designer - em todos os tipos de obra.
Não somente em obras arquitetônicas, mas em obras artísticas em geral há cada vez mais contestações sobre a supremacia do autor, que controla a sua obra e entrega-a para a sociedade um trabalho fechado e finalizado. Procura-se agora um design open source, onde todos os usuários podem colaborar para a formação do espaço, que já não é mais visto como algo rígido, imutável e permanentemente fixo.
Para saber mais disso, tem um artigo ótimo do Usman Haque aqui, é um texto bem leve. E o site dele é esse.
Não precisamos recorrer à instalações artísticas ou mediarts pra pensar nesse processo.
Diariamente modificamos o espaço à nossa volta sem perceber. A paisagem sonora é fruto de inúmeros fatores: do hardspace (o espaço imprime sua característica no som, pois o som reverbera, é absorvido, refletido, etc.), dos arredores que podem influir (lembre de seu vizinho agora), dos elementos que estão envolvidos no lugar, e... nós mesmos, por mais silenciosos que tentamos ser. Talvez o fator de que estamos envolvidos no meio sempre é esquecido.
O hardware de um espaço pode ser as paredes imóveis, chão e teto. Podemos animar esse espaço, e fazemos isso todos os dias: ouvimos música, cozinhamos, colocamos essências, pintamos e decoramos, adaptamos e animamos o lugar para atender nossas necessidades e desejos. Essa é a parte que pode ser um software.
O hardspace’ aparece como algo concreto e definido no espaço através de suas propriedades físicas como paredes fixas, chão e teto; mas também como um softspace, que interage com o meio, onde as pessoas são afetadas e também têm efeito sobre ele. O hardspace, porém, pode ditar os processos que podem ocorrer no softspace.
A arquitetura incorpora o meio, e está em constante transformação através de seu uso e reuso.
Não se pode planejar um espaço fechado e empacotado para o usuário. O usuário tem que ser visto no processo como um co-designer - em todos os tipos de obra.
Não somente em obras arquitetônicas, mas em obras artísticas em geral há cada vez mais contestações sobre a supremacia do autor, que controla a sua obra e entrega-a para a sociedade um trabalho fechado e finalizado. Procura-se agora um design open source, onde todos os usuários podem colaborar para a formação do espaço, que já não é mais visto como algo rígido, imutável e permanentemente fixo.
Para saber mais disso, tem um artigo ótimo do Usman Haque aqui, é um texto bem leve. E o site dele é esse.
Não precisamos recorrer à instalações artísticas ou mediarts pra pensar nesse processo.
Diariamente modificamos o espaço à nossa volta sem perceber. A paisagem sonora é fruto de inúmeros fatores: do hardspace (o espaço imprime sua característica no som, pois o som reverbera, é absorvido, refletido, etc.), dos arredores que podem influir (lembre de seu vizinho agora), dos elementos que estão envolvidos no lugar, e... nós mesmos, por mais silenciosos que tentamos ser. Talvez o fator de que estamos envolvidos no meio sempre é esquecido.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Emoção Art.Ficial 5.0 - BION de Adam Brown e Andrew Fagg
http://www.isisconceptuallaboratory.com/bion.html
Essa obra de Adam Brown e Andrew Fagg é belíssima. Em exposição no Itaú Cultural, em São Paulo, a obra consiste em vários 'bichinhos' que atuam de forma autônoma entre si de acordo com a presença de humanos.
O mais belo é que cada um tem uma resposta diferente. A presença não contamina o todo de uma vez só. A simples presença de alguém consegue transformar as luzes e sons, onde cada elemento influi o outro, como se fosse contando para o outro que alguém passou perto, mudando todo o contexto visual e sonoro. Como um aviso, uma fofoca.
- ". One by one, in rapid succession, bions signal other bions of the stranger and in a wave like pattern become silent. The bions eventually become accustomed to her presence and begin to respond to her as if she was part of their ecosystem. They become attracted to her and glow more intensely when she nears. Eventually, she is incorporated into the dynamic array she once witnessed."
Passada a sensação de 'ameaça', os bions identificam você como parte deles. Daí você pode estar no meio deles, perceber as nuances sonoras que cada um reproduz.
De longe, o som parece uma massa de cigarras biônicas.
Próximo, o som é cheio de fragmentos perceptíveis - o verdadeiro som só é revelado quando você faz parte do ecossistema dos bions!
O site de Adam Brown é por aqui.
O site da exposição é por aqui. Vale dizer que é gratuita, só deixa a desejar porque não se pode filmar ou tirar fotos. É até dia 05 de setembro.
sábado, 17 de julho de 2010
Imersão e apercepção
“Uma das funções sociais mais importantes do cinema é criar um equilíbrio entre o homem e a aparelho. O cinema não realiza essa tarefa apenas pelo modo com que o homem se representa diante do aparelho, mas pelo modo com que ele representa o mundo, graças a esse aparelho. Através dos seus grandes planos, de sua ênfase sobre pormenores ocultos dos objetos que nos são familiares, e de sua investigação dos ambientes mais vulgares sob a direção genial da objetiva, o cinema faz-nos vislumbrar, por um lado, os mil condicionamentos que determinam nossa existência, e por outro assegura-nos um grande e insuspeitado espaço de liberdade.” (BENJAMIN, 1996)
O assistir imagens em movimento acompanhadas por sons: uma caverna escura, com uma fonte de luz que reproduz em uma parede imagens em movimento do mundo exterior, que tem seus sons ecoados dentro da caverna, parecendo sair das próprias imagens. Para Arlindo Machado (1997), no mito da caverna de Platão, o mundo dentro da caverna não é um produto do mundo exterior de luzes, mas também um mundo construído e modificado pelos forjadores. Baudry (apud Machado 1997, 43) discorre que os efeitos ideológicos produzidos pelo aparato técnico da sala de cinema – o projetor, a sala escura e a tela – completa a mise en scène da caverna, com imersão do espectador ao mundo apresentado através das imagens na tela. Na sala de projeção as perturbações visuais e auditivas não provenientes do filme são atenuadas, colaborando para um isolamento do espectador. A fluidez do filme está nesse convite à imersão, para qual os sons têm grande importância.
Desde as primeiras projeções cinematográficas, notou-se necessária a ambientação sonora para melhor imersão do espectador na narrativa. Desde os primórdios do cinema havia o desejo e a tentativa de unir o som às imagens da tela: narradores, dublagem ao vivo atrás das telas, partituras específicas para serem tocadas junto a determinados filmes, dentre outros. A presença de sons referentes à imagem sempre foi requerida, também no cinema silencioso.
O som no audiovisual não deve ser entendido ou tratado somente como um acessório, mas também um membro que faz parte de um todo orgânico e responsivo. O sonoro também traz “uma nova dimensão da imagem visual, um novo componente”, o som faz ver na imagem algo que não surge livremente (DELEUZE, 2007. p. 269.). Variadas formas de construção sonora conseguem levar informações importantes ao espectador, não somente através da maneira clara do diálogo, mas também através de outros elementos sonoros. Os componentes sonoros de uma trilha sonora podem ser divididos em ambiências, falas, ruídos, efeitos e música, e podem ser mais ou menos distinguidos entre uns e os outros. Todos os componentes sonoros são misturados, onde um é controlado pelo outro, formando a ilusão de unidade sonora. Todos esses elementos podem ser independentes entre si, suprirem-se ou se transformarem (DELEUZE, 2007): e a parceria com a imagem ganha vários sentidos conforme o momento.
BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. A Idéia do Cinema. (José Lino Grünnewald, org.) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. Texto originalmente publicado em 1955.
DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Editora Brasiliense, 2007.
MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas e Pós-cinemas. 1ª edição. Coleção Campo Imagético. Campinas: Editora Papirus, 1997.
sábado, 19 de junho de 2010
O sentido das reproduções sonoras
O advento dos equipamentos gravadores e reprodutores (a invenção do fonógrafo foi em 1877, que gravava e reproduzia) fez com que o espaço sonoro rompesse a barreira física instaurada entre fonte sonora e receptor. O espaço sensório humano aumenta, e as mídias formam suas próprias linguagens. Alguns 'formatos' se unem formando linguagens diferentes, como o audiovisual. Ganha-se o rádio, música gravada, televisão, cinema, instalações artísticas na paisagem sonora. Como defendido por McLuhan, os meios extendem o homem, não estamos mais bloqueados pela barreira física.
Apesar do contexto atual, parece ser ainda muito problemática a questão da reprodução para alguns. A questão da "perda da aura", levantada por Walter Benjamin, parece assombrar. Hoje, essa "perda da aura" para muitos significa somente "generalização", e pode revelar um pensamento contrário à difusão das obras. É o início da 'coisa diferente'.
Sem a reprodução, a educação estaria direcionada a poucos - do livro à internet. Sem a reprodução, estaríamos fechados "no nosso próprio mundinho", não enxergando outras culturas. Perderíamos coisas muitos boas e bonitas de se ver.
Gostamos de separar muito entre o "melhor" e o "pior". Assistir um show é melhor que ouvir um cd em casa.
Deve-se encarar como eventos diferentes. Uma pessoa pode ter um sem-número de aleatoriedades que darão como resultados não se sentir bem em um show. Porém pode se sentir melhor quando escuta um cd em casa. Há muitíssimos fatores que podem fazer da escuta da reprodução mais proveitosa. São coisas diferentes e não é o fato de pertencerem ao âmbito do "escutar música" que as tornam iguais.
Estamos numa época do sentir. Podemos sentir várias vezes, sentir diferente. Esquecer o sentir melhor ou pior.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Ver as ondas...
... inclusive as de água. Interação das ondas sonoras no meio.
http://www.youtube.com/watch?v=p3NykzXhqKw
http://www.youtube.com/watch?v=p3NykzXhqKw
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Eureka
Um texto muito bom = muitas ideias novas a desenvolver.
Som, feedback e interação
http://www.garthpaine.com/papers/files/artistic-context-caiia03.pdf
Interactive, Responsive Sound Environments - A Broader Artistic Context
Dr Garth Paine
Music, technology and Innovation
De Montfort University UK
Abstract:
Interactive systems offer a unique method of engagement, based on a response – response exchange. They offer the promise of a truly immerses experience.
This paper will look at the development of artistic practice in the twentieth century, and it’s associated focus on individual expression. It will do so as a way of looking at the development of the interactive ideal.
In drawing a conceptual framework for interaction, it will also draw on the study of Cybernetics, particularly, the causal loop, drawing parallels between the interdependent nature of the causal loop, and the relationships developed in an interactive system.
Finally, I put forward a personal observation on how explicit the role of the technology should be in the users experience of engagement with the interactive system. This collection of musings represents an exploration of the many facets of interaction, especially within an interactive, immersive environment, with the view to establishing an interdisciplinary context for personal engagement and experience, and some conceptual starting points for thinking about interactive sound works beyond the confines of “music” per se.
Som, feedback e interação
http://www.garthpaine.com/papers/files/artistic-context-caiia03.pdf
Interactive, Responsive Sound Environments - A Broader Artistic Context
Dr Garth Paine
Music, technology and Innovation
De Montfort University UK
Abstract:
Interactive systems offer a unique method of engagement, based on a response – response exchange. They offer the promise of a truly immerses experience.
This paper will look at the development of artistic practice in the twentieth century, and it’s associated focus on individual expression. It will do so as a way of looking at the development of the interactive ideal.
In drawing a conceptual framework for interaction, it will also draw on the study of Cybernetics, particularly, the causal loop, drawing parallels between the interdependent nature of the causal loop, and the relationships developed in an interactive system.
Finally, I put forward a personal observation on how explicit the role of the technology should be in the users experience of engagement with the interactive system. This collection of musings represents an exploration of the many facets of interaction, especially within an interactive, immersive environment, with the view to establishing an interdisciplinary context for personal engagement and experience, and some conceptual starting points for thinking about interactive sound works beyond the confines of “music” per se.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Imaginary Landscape no. 5
Uma composição-recortes, em que o compositor entrega uma 'obra pronta' pra ser recortada por quem quiser, e tampouco precisa de músicos.
http://www.youtube.com/watch?v=C8b5epOonI8
http://www.youtube.com/watch?v=C8b5epOonI8
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Encucações: interações com a paisagem sonora
A paisagem sonora (talvez descartando rádio, música entre outras coisas) parece ter um muro que impossibilita uma interação das pessoas com o ambiente através dela.
Há tempos penso sobre a questão de uma interação sonora: um grupo de pessoas interagindo e modificando o ambiente, que responde algo às pessoas, obtendo uma circularidade e feedback - com um olhar cibernético (essa questão vai ter que ficar para uma outra hora....)
O FILE 2009 não sai da minha cabeça, junto ao Primal Source do Usman Haque. O que eles têm em comum? O Festival de 2009 apresentou várias instalações que faziam as pessoas mudarem de comportamento, para agir sobre a obra. Esta por sua vez, respondia e estimulava uma nova acão das pessoas, estabelecendo um ciclo. Por exemplo o Capacitive Body, dos alemães Andreas Muxel e Martin Hesselmeier.
O Capacitive Body era uns fios 'eletro luminescentes' que respondiam aos sons emitindo luz, que passeava pelos fios. Como o Festival foi realizado no SESI da Av. Paulista, em São Paulo, ele foi colocado estrategicamente na frente do prédio, separado da calçada e da rua por um vidro.
Os carros passavam e os fios acompanhavam o movimento sonoro. E as pessoas iam até lá, gritavam e batiam palmas esperando os fios responderem.
Outros, pro delírio das crianças e desespero dos monitores, faziam sons quando estimulados por alguém. Refiro-me especificamente a uma obra que infelizmente esqueci o nome e não consegui encontrar (ajuda?) mas era uma circunferência sensível ao toque das pessoas, que emitia sons, e podia-se até mesmo produzir uma música eletrônica.
Será que a interação com o espaço através dos sons encontra seu espaço lúdico só em instalações e obras de arte?
Será que não saímos do nosso cotidiano sonoro se não formos estimulados?
Como fazer alguma coisa fora da estrutura do que já foi feito?
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