(Dá um bom nome de livro de auto-ajuda, mas não é.)
No dia-a-dia urbano, muitas coisas passam por nós, e consequentemente seus sons. Pelo som ser baseado em partículas vibrantes, paisagem sonora acaba por dizer muito sobre o espaço que se está, o movimento, a sociedade.
Até mesmo em locais de grandes cidades onde a paisagem "verde" pode ter uma predominância razoável dentro de seu contexto, como o Parque do Flamengo ou em partes do Ibirapuera, pouco se "escuta" dessa imagem. O ruído de fundo da cidade, como desses casos, encobre certos sons pelo seu corpo e intensidade, e acaba tornando uma trilha sonora comum e cotidiana, imperceptível. O som cotidiano só se faz escutar quando parece fora de contexto, ou quando aparece deslocado dessa paisagem sonora que elegemos de ruído de fundo de acordo com o lugar que vivemos, com a sociedade e cultura que criamos.
Nessa semana, como qualquer normal faria, não me atentei para o entorno sonoro. Quando falava desses assuntos dos parágrafos anteriores, por coincidência um grilo começou a se manifestar em um nível tão alto quanto minha voz. Reparei que era o som mais 'natural' do dia. Depois em um segundo pensamento lembrei de um cachorro que passou arfando com todos os seus pulmões, próximo à sala da universidade. De terceira vez, com algum esforço, lembrei do barulho mais insistente do dia: dos carros da avenida movimentada ali perto, que persistia mesmo quando queria descansar os ouvidos. Alguns outros barulhos pontuais como de celulares, notebooks, cliques de mouse e teclados furiosos, pessoas conversando, resmungando, rindo, mas nada chamou tanta a atenção quanto o tal grilo e o cachorro.
Esses dois elementos pareciam tão deslocados do contexto. Sons "verdes", às vezes nem tão "verdes", dificilmente aparecem devido sua delicadeza. Quando se ouve uma árvore ao vento? Considerando o cotidiano urbano, maior parte dos sons parecem ser correspondentes a trabalho e deslocamento, apenas.
Se realmente temos a paisagem sonora como um reflexo da sociedade e cultura, seria interessante repensar a ecologia sonora urbana.
Experiências pessoais, pesquisas acadêmicas, diário de produções. Tudo que parece ser um pouco distante, ainda mais sobre som, áudio, paisagem sonora - controlada ou não.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Retomada do blog - Bienal de Artes de São Paulo 2010
Percebe-se pelas datas das postagens o fim de ano conturbado. Gostaria de tentar compensar a falta, mas acredito que se prometesse tal coisa, seria uma promessa falsa.
Muito passou nesses meses, vou tentar ressuscitar algumas anotações, que parecem sempre tão sem noção quando se passa determinado tempo.
Na Bienal das Artes de São Paulo, percebeu-se que muitas obras tinham o som como uma parte de sua concepção. Algumas eram essencialmente audiovisuais, agindo diretamente no sentido (ou fruição, como preferirem), e outras o som atuava como um acompanhante.
Como resultado do uso sonoro ou audiovisual, ou da falta de determinação (quem sabe) do 'volume' apropriado para o espaço, ou até mesmo o desejo de determinados artistas em interferirem em todo o espaço de exposição, o lugar acabou tendo uma paisagem sonora própria, diferente da cotidiana mas igualmente intensa. O som de uma obra agia sobre a outra, modificando a intenção e o sentido da uma 'forma de arte' que nunca pensou em se encontrar com aquela outra. Até onde o idealizador pode prever o decorrer da obra? Aquela velha questão: a obra foi o que ele idealizou ou foi o sentido que atribuídos, distorcemos, modificamos? Querendo ou não, o som afeta sensações e portanto aquilo que vemos. Quando perceber que estamos ouvindo algo além de ver uma foto, gravura, quadro, algo essencialmente imagético?
A mais impactante pelo silêncio foi 'Beggars', de Kutlug Ataman (Turquia/Inglaterra, 1961, diz o catálogo oficial da Bienal). Ao entrar em uma sala, com paredes, a projeção de imagens de pedintes em preto e branco em cada uma das paredes, que cercam quem entra naquela sala escura e silenciosa. Pessoalmente, o preto e branco dá o mesmo caracter fantasmagórico dos filmes antigos, a ideia da efemeridade, incerteza, morte e sucessão de acontecimentos - que pode ser aplicada nessa realização visto que é de 1961. Alguns pedintes com maior desespero, outros mais lânguidos... e o silêncio que deixa a atmosfera de desconforto. Nada há pra ser dito ou ouvido. Certamente o impacto e o discurso político da obra não seria o mesmo se alguma ambiência fosse colocada.
Ainda me pergunto sobre o assobio na escada rolante, como se alguém estivesse ali assobiando alguma melodia. Olhava para todos os lados e ninguém. Na outra escada rolante a mesma coisa. O assobio, o cotidiano, o silêncio muitas vezes incômodo do elevador. Movidos por som, não ouvimos - apenas emitimos.
Um elemento que afeta outro no espaço, dando outros sentidos. Hoje em dia, às vezes é necessária alguma exposição barulhenta que faça você entender o que se passa.
Muito passou nesses meses, vou tentar ressuscitar algumas anotações, que parecem sempre tão sem noção quando se passa determinado tempo.
Na Bienal das Artes de São Paulo, percebeu-se que muitas obras tinham o som como uma parte de sua concepção. Algumas eram essencialmente audiovisuais, agindo diretamente no sentido (ou fruição, como preferirem), e outras o som atuava como um acompanhante.
Como resultado do uso sonoro ou audiovisual, ou da falta de determinação (quem sabe) do 'volume' apropriado para o espaço, ou até mesmo o desejo de determinados artistas em interferirem em todo o espaço de exposição, o lugar acabou tendo uma paisagem sonora própria, diferente da cotidiana mas igualmente intensa. O som de uma obra agia sobre a outra, modificando a intenção e o sentido da uma 'forma de arte' que nunca pensou em se encontrar com aquela outra. Até onde o idealizador pode prever o decorrer da obra? Aquela velha questão: a obra foi o que ele idealizou ou foi o sentido que atribuídos, distorcemos, modificamos? Querendo ou não, o som afeta sensações e portanto aquilo que vemos. Quando perceber que estamos ouvindo algo além de ver uma foto, gravura, quadro, algo essencialmente imagético?
A mais impactante pelo silêncio foi 'Beggars', de Kutlug Ataman (Turquia/Inglaterra, 1961, diz o catálogo oficial da Bienal). Ao entrar em uma sala, com paredes, a projeção de imagens de pedintes em preto e branco em cada uma das paredes, que cercam quem entra naquela sala escura e silenciosa. Pessoalmente, o preto e branco dá o mesmo caracter fantasmagórico dos filmes antigos, a ideia da efemeridade, incerteza, morte e sucessão de acontecimentos - que pode ser aplicada nessa realização visto que é de 1961. Alguns pedintes com maior desespero, outros mais lânguidos... e o silêncio que deixa a atmosfera de desconforto. Nada há pra ser dito ou ouvido. Certamente o impacto e o discurso político da obra não seria o mesmo se alguma ambiência fosse colocada.
Ainda me pergunto sobre o assobio na escada rolante, como se alguém estivesse ali assobiando alguma melodia. Olhava para todos os lados e ninguém. Na outra escada rolante a mesma coisa. O assobio, o cotidiano, o silêncio muitas vezes incômodo do elevador. Movidos por som, não ouvimos - apenas emitimos.
Um elemento que afeta outro no espaço, dando outros sentidos. Hoje em dia, às vezes é necessária alguma exposição barulhenta que faça você entender o que se passa.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Ambientes sonoros interativos
O meu texto publicado na ABCiber desse ano:
Soundscape + Softspace - a questão sonora em Primal Source, de Usman Haque.
Próxima semana, estarei novamente no Rio - agora com tempo pra turismo!
Soundscape + Softspace - a questão sonora em Primal Source, de Usman Haque.
Próxima semana, estarei novamente no Rio - agora com tempo pra turismo!
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Breve texto sobre som e imaginação na radionovela e radiodocumentário
No audiovisual, a associação entre imagem e som facilita a decodificação da mensagem, podendo ser explorada de forma criativa. Enquanto isso o som 'atiça' a imaginação, não dá a informação completa e faz como a literatura: o ouvinte ou leitor imaginam o próprio mundo que o meio está tratando, criando de acordo com o estímulo.
Essa frase do Arhneim já está colocada em outro post:
“A obra radiofônica, apesar de seu caráter abstrato e oculto, é capaz de criar um mundo próprio com o material sensível de que dispõe, atuando de maneira que não se necessite nenhum tipo de complemento visual”
A peça radiofônica tinha uma única chance de apresentação ao ouvinte. Hoje, a peça radiofônica dissemina-se pelos arquivos digitais e os downloads, podendo ser ouvidas a qualquer hora. Mas o ato de "voltar" o áudio compromete a fruição. Portanto, o caráter de "única chance" deve ser considerado. Além do mais, por nós ocidentais sermos estimulados principalmente pelo meio visual, encontramos várias distrações quando escutamos algo no rádio - faxina, conversa diária, leitura, tendo na peça radiofônica uma trilha sonora de fundo. A narrativa radiofônica, ficcional ou documental, exige devida atenção do ouvinte para imersão, diferentemente dos programas musicais.
Os elementos para a criação do mundo próprio são vários: falas, músicas, 'silêncio', efeitos e 'ruídos'.
A linguagem radiofônica é o que o conjunto de elementos sonoros que se relacionam, produzindo estímulos sensoriais estéticos ou intelectuais, ou para criar imagens.
Não é imposto criar uma peça radiofônica somente pela fala e música, como em Repórter Esso. Hoje, todos os elementos sonoros devem ser trabalhados em conjunto dando um resultado diferenciado e mais detalhado do que os clássicos e clichês da década de 60. Na radionovela o som pode ser tratado de maneira mais apurada, não requerendo que os personagens falem tudo que fazem ou vão fazer. A linguagem pode ser desenvolvida através de outros elementos sonoros. No radiodocumentário, que se difere do radiojornalismo pelo aprofundamento e a diversificação de pontos de vista (documentações podem ser variadas, diversificadas e múltiplas, podendo incluir e desenvolver os dados que ficam fora da notícia), pode utilizar variados materiais: entrevistas, materiais de arquivo, narrações, músicas...
O humano tem tendência em atribuir mais importância à voz - o vococentrismo (Michel Chion) - porém todos os elementos sonoros interagindo traz uma maior imersão e detalhismo do espaço acústico da peça radiofônica, isso é possível de certificar pelos próprios clichês e estereótipos de radionovelas.
Outro aspecto importante a ser notado é a interação com o ouvinte, antes por telefone e cartas e hoje através de sites, twitter, facebook e outras redes sociais, além do clássico telefone. O rádio sempre pediu essa interatividade.
Essa frase do Arhneim já está colocada em outro post:
“A obra radiofônica, apesar de seu caráter abstrato e oculto, é capaz de criar um mundo próprio com o material sensível de que dispõe, atuando de maneira que não se necessite nenhum tipo de complemento visual”
A peça radiofônica tinha uma única chance de apresentação ao ouvinte. Hoje, a peça radiofônica dissemina-se pelos arquivos digitais e os downloads, podendo ser ouvidas a qualquer hora. Mas o ato de "voltar" o áudio compromete a fruição. Portanto, o caráter de "única chance" deve ser considerado. Além do mais, por nós ocidentais sermos estimulados principalmente pelo meio visual, encontramos várias distrações quando escutamos algo no rádio - faxina, conversa diária, leitura, tendo na peça radiofônica uma trilha sonora de fundo. A narrativa radiofônica, ficcional ou documental, exige devida atenção do ouvinte para imersão, diferentemente dos programas musicais.
Os elementos para a criação do mundo próprio são vários: falas, músicas, 'silêncio', efeitos e 'ruídos'.
A linguagem radiofônica é o que o conjunto de elementos sonoros que se relacionam, produzindo estímulos sensoriais estéticos ou intelectuais, ou para criar imagens.
Não é imposto criar uma peça radiofônica somente pela fala e música, como em Repórter Esso. Hoje, todos os elementos sonoros devem ser trabalhados em conjunto dando um resultado diferenciado e mais detalhado do que os clássicos e clichês da década de 60. Na radionovela o som pode ser tratado de maneira mais apurada, não requerendo que os personagens falem tudo que fazem ou vão fazer. A linguagem pode ser desenvolvida através de outros elementos sonoros. No radiodocumentário, que se difere do radiojornalismo pelo aprofundamento e a diversificação de pontos de vista (documentações podem ser variadas, diversificadas e múltiplas, podendo incluir e desenvolver os dados que ficam fora da notícia), pode utilizar variados materiais: entrevistas, materiais de arquivo, narrações, músicas...
O humano tem tendência em atribuir mais importância à voz - o vococentrismo (Michel Chion) - porém todos os elementos sonoros interagindo traz uma maior imersão e detalhismo do espaço acústico da peça radiofônica, isso é possível de certificar pelos próprios clichês e estereótipos de radionovelas.
Outro aspecto importante a ser notado é a interação com o ouvinte, antes por telefone e cartas e hoje através de sites, twitter, facebook e outras redes sociais, além do clássico telefone. O rádio sempre pediu essa interatividade.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Relato de relatos
E o quico som tem a ver com educação ambiental?
Talvez muitas coisas.
Aprendemos a ignorar o dia-a-dia urbano. Não ouvimos mais.
Na verdade, ouvimos sim, mas colocamos fones de ouvido para ouvir coisas melhores.
Os sons podem não ser agradáveis. Podem ser muito altos. Embaralhados. Um som de falante-passos-de-salto-urro-ônibus-carro-moto. Sem distinguir as nuances, as profundidades. Fica uma grande parede sonora (lo-fi).
Nada nos chama a atenção sonoramente, a não ser quando não conseguimos lidar com o incômodo ou quando há algum 'ruído não-diegético'. Um som não usual no entrelaçamento urbano. Um som de pássaro no meio da Avenida Paulista. Ou um grilo no meio do mercadão. Tá ouvindo?
Certas paisagens sonoras estão extintas ou ameaçadas, como plantas ou animais que compõem o seu organismo vivo. Aqui, todos arredores também influenciam.
Os relatos da visita do pessoal do BioLAbI a parque ecológicos para um mapeamento instiga algumas questões. Desde uma mudança da temporalidade, da escuta de diversas nuances, como a ausência da correria sonora diária implica em um resguardo.
Não podemos fechar as orelhas como fazemos com as pálpebras. Às vezes nem nos reconhecemos como ouvintes e, mais comum ainda, enquanto agentes sonoros. Falou?
Talvez muitas coisas.
Aprendemos a ignorar o dia-a-dia urbano. Não ouvimos mais.
Na verdade, ouvimos sim, mas colocamos fones de ouvido para ouvir coisas melhores.
Os sons podem não ser agradáveis. Podem ser muito altos. Embaralhados. Um som de falante-passos-de-salto-urro-ônibus-carro-moto. Sem distinguir as nuances, as profundidades. Fica uma grande parede sonora (lo-fi).
Nada nos chama a atenção sonoramente, a não ser quando não conseguimos lidar com o incômodo ou quando há algum 'ruído não-diegético'. Um som não usual no entrelaçamento urbano. Um som de pássaro no meio da Avenida Paulista. Ou um grilo no meio do mercadão. Tá ouvindo?
Certas paisagens sonoras estão extintas ou ameaçadas, como plantas ou animais que compõem o seu organismo vivo. Aqui, todos arredores também influenciam.
Os relatos da visita do pessoal do BioLAbI a parque ecológicos para um mapeamento instiga algumas questões. Desde uma mudança da temporalidade, da escuta de diversas nuances, como a ausência da correria sonora diária implica em um resguardo.
Não podemos fechar as orelhas como fazemos com as pálpebras. Às vezes nem nos reconhecemos como ouvintes e, mais comum ainda, enquanto agentes sonoros. Falou?
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Ruído diegético
Não percebemos muito bem o meio sonoro. Schafer já escreveu que aprendemos a ignorar os 'ruídos', e percebemos somente que um ruído definitivamente existe e está atuando no ambiente quando ele não faz 'parte da diegese', não é um elemento do dia-a-dia.
Os sons cotidianos e frequentes ressaltam quando param. Ou quando o som pertence a outro lugar. Parece uma questão quase cinematográfica.
Fica aqui um exemplo do "Era uma vez no Oeste", dirigido por Sergio Leoni, que traduz isso.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Câmara anecóica ou semi-anecóica
O silêncio não existe. A câmara anecóica apenas deixa o som com menor intensidade.
A vivacidade dos arredores não invade a câmara. Relatos dizem que as palavras caem como blocos sólidos no chão. Outros, como o de John Cage, que chega-se escutar o som do próprio sangue circulando e do sistema nervoso em plena atividade.
Os dois relatos parecem assustadores. Tanto que fui procurar imagens da câmara anecóica. Não achei a imagem menos assustadora: claustrofóbica como a câmara configura o próprio som em seu interior!
As imagens estão diretamente ligadas à url original. Pra ver o site de onde vem é só dar uma olhada.
A vivacidade dos arredores não invade a câmara. Relatos dizem que as palavras caem como blocos sólidos no chão. Outros, como o de John Cage, que chega-se escutar o som do próprio sangue circulando e do sistema nervoso em plena atividade.
Os dois relatos parecem assustadores. Tanto que fui procurar imagens da câmara anecóica. Não achei a imagem menos assustadora: claustrofóbica como a câmara configura o próprio som em seu interior!
As imagens estão diretamente ligadas à url original. Pra ver o site de onde vem é só dar uma olhada.
sábado, 24 de julho de 2010
O Softspace e o espaço open source
O espaço pode ser encarado como um computador: possui uma parte rígida, o hardware, e todos os programas que animam essa parte, o software.
O hardware de um espaço pode ser as paredes imóveis, chão e teto. Podemos animar esse espaço, e fazemos isso todos os dias: ouvimos música, cozinhamos, colocamos essências, pintamos e decoramos, adaptamos e animamos o lugar para atender nossas necessidades e desejos. Essa é a parte que pode ser um software.
Não se pode planejar um espaço fechado e empacotado para o usuário. O usuário tem que ser visto no processo como um co-designer - em todos os tipos de obra.
Não somente em obras arquitetônicas, mas em obras artísticas em geral há cada vez mais contestações sobre a supremacia do autor, que controla a sua obra e entrega-a para a sociedade um trabalho fechado e finalizado. Procura-se agora um design open source, onde todos os usuários podem colaborar para a formação do espaço, que já não é mais visto como algo rígido, imutável e permanentemente fixo.
Para saber mais disso, tem um artigo ótimo do Usman Haque aqui, é um texto bem leve. E o site dele é esse.
Não precisamos recorrer à instalações artísticas ou mediarts pra pensar nesse processo.
Diariamente modificamos o espaço à nossa volta sem perceber. A paisagem sonora é fruto de inúmeros fatores: do hardspace (o espaço imprime sua característica no som, pois o som reverbera, é absorvido, refletido, etc.), dos arredores que podem influir (lembre de seu vizinho agora), dos elementos que estão envolvidos no lugar, e... nós mesmos, por mais silenciosos que tentamos ser. Talvez o fator de que estamos envolvidos no meio sempre é esquecido.
O hardware de um espaço pode ser as paredes imóveis, chão e teto. Podemos animar esse espaço, e fazemos isso todos os dias: ouvimos música, cozinhamos, colocamos essências, pintamos e decoramos, adaptamos e animamos o lugar para atender nossas necessidades e desejos. Essa é a parte que pode ser um software.
O hardspace’ aparece como algo concreto e definido no espaço através de suas propriedades físicas como paredes fixas, chão e teto; mas também como um softspace, que interage com o meio, onde as pessoas são afetadas e também têm efeito sobre ele. O hardspace, porém, pode ditar os processos que podem ocorrer no softspace.
A arquitetura incorpora o meio, e está em constante transformação através de seu uso e reuso.
Não se pode planejar um espaço fechado e empacotado para o usuário. O usuário tem que ser visto no processo como um co-designer - em todos os tipos de obra.
Não somente em obras arquitetônicas, mas em obras artísticas em geral há cada vez mais contestações sobre a supremacia do autor, que controla a sua obra e entrega-a para a sociedade um trabalho fechado e finalizado. Procura-se agora um design open source, onde todos os usuários podem colaborar para a formação do espaço, que já não é mais visto como algo rígido, imutável e permanentemente fixo.
Para saber mais disso, tem um artigo ótimo do Usman Haque aqui, é um texto bem leve. E o site dele é esse.
Não precisamos recorrer à instalações artísticas ou mediarts pra pensar nesse processo.
Diariamente modificamos o espaço à nossa volta sem perceber. A paisagem sonora é fruto de inúmeros fatores: do hardspace (o espaço imprime sua característica no som, pois o som reverbera, é absorvido, refletido, etc.), dos arredores que podem influir (lembre de seu vizinho agora), dos elementos que estão envolvidos no lugar, e... nós mesmos, por mais silenciosos que tentamos ser. Talvez o fator de que estamos envolvidos no meio sempre é esquecido.
sábado, 19 de junho de 2010
O sentido das reproduções sonoras
O advento dos equipamentos gravadores e reprodutores (a invenção do fonógrafo foi em 1877, que gravava e reproduzia) fez com que o espaço sonoro rompesse a barreira física instaurada entre fonte sonora e receptor. O espaço sensório humano aumenta, e as mídias formam suas próprias linguagens. Alguns 'formatos' se unem formando linguagens diferentes, como o audiovisual. Ganha-se o rádio, música gravada, televisão, cinema, instalações artísticas na paisagem sonora. Como defendido por McLuhan, os meios extendem o homem, não estamos mais bloqueados pela barreira física.
Apesar do contexto atual, parece ser ainda muito problemática a questão da reprodução para alguns. A questão da "perda da aura", levantada por Walter Benjamin, parece assombrar. Hoje, essa "perda da aura" para muitos significa somente "generalização", e pode revelar um pensamento contrário à difusão das obras. É o início da 'coisa diferente'.
Sem a reprodução, a educação estaria direcionada a poucos - do livro à internet. Sem a reprodução, estaríamos fechados "no nosso próprio mundinho", não enxergando outras culturas. Perderíamos coisas muitos boas e bonitas de se ver.
Gostamos de separar muito entre o "melhor" e o "pior". Assistir um show é melhor que ouvir um cd em casa.
Deve-se encarar como eventos diferentes. Uma pessoa pode ter um sem-número de aleatoriedades que darão como resultados não se sentir bem em um show. Porém pode se sentir melhor quando escuta um cd em casa. Há muitíssimos fatores que podem fazer da escuta da reprodução mais proveitosa. São coisas diferentes e não é o fato de pertencerem ao âmbito do "escutar música" que as tornam iguais.
Estamos numa época do sentir. Podemos sentir várias vezes, sentir diferente. Esquecer o sentir melhor ou pior.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Eureka
Um texto muito bom = muitas ideias novas a desenvolver.
Som, feedback e interação
http://www.garthpaine.com/papers/files/artistic-context-caiia03.pdf
Interactive, Responsive Sound Environments - A Broader Artistic Context
Dr Garth Paine
Music, technology and Innovation
De Montfort University UK
Abstract:
Interactive systems offer a unique method of engagement, based on a response – response exchange. They offer the promise of a truly immerses experience.
This paper will look at the development of artistic practice in the twentieth century, and it’s associated focus on individual expression. It will do so as a way of looking at the development of the interactive ideal.
In drawing a conceptual framework for interaction, it will also draw on the study of Cybernetics, particularly, the causal loop, drawing parallels between the interdependent nature of the causal loop, and the relationships developed in an interactive system.
Finally, I put forward a personal observation on how explicit the role of the technology should be in the users experience of engagement with the interactive system. This collection of musings represents an exploration of the many facets of interaction, especially within an interactive, immersive environment, with the view to establishing an interdisciplinary context for personal engagement and experience, and some conceptual starting points for thinking about interactive sound works beyond the confines of “music” per se.
Som, feedback e interação
http://www.garthpaine.com/papers/files/artistic-context-caiia03.pdf
Interactive, Responsive Sound Environments - A Broader Artistic Context
Dr Garth Paine
Music, technology and Innovation
De Montfort University UK
Abstract:
Interactive systems offer a unique method of engagement, based on a response – response exchange. They offer the promise of a truly immerses experience.
This paper will look at the development of artistic practice in the twentieth century, and it’s associated focus on individual expression. It will do so as a way of looking at the development of the interactive ideal.
In drawing a conceptual framework for interaction, it will also draw on the study of Cybernetics, particularly, the causal loop, drawing parallels between the interdependent nature of the causal loop, and the relationships developed in an interactive system.
Finally, I put forward a personal observation on how explicit the role of the technology should be in the users experience of engagement with the interactive system. This collection of musings represents an exploration of the many facets of interaction, especially within an interactive, immersive environment, with the view to establishing an interdisciplinary context for personal engagement and experience, and some conceptual starting points for thinking about interactive sound works beyond the confines of “music” per se.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Encucações: interações com a paisagem sonora
A paisagem sonora (talvez descartando rádio, música entre outras coisas) parece ter um muro que impossibilita uma interação das pessoas com o ambiente através dela.
Há tempos penso sobre a questão de uma interação sonora: um grupo de pessoas interagindo e modificando o ambiente, que responde algo às pessoas, obtendo uma circularidade e feedback - com um olhar cibernético (essa questão vai ter que ficar para uma outra hora....)
O FILE 2009 não sai da minha cabeça, junto ao Primal Source do Usman Haque. O que eles têm em comum? O Festival de 2009 apresentou várias instalações que faziam as pessoas mudarem de comportamento, para agir sobre a obra. Esta por sua vez, respondia e estimulava uma nova acão das pessoas, estabelecendo um ciclo. Por exemplo o Capacitive Body, dos alemães Andreas Muxel e Martin Hesselmeier.
O Capacitive Body era uns fios 'eletro luminescentes' que respondiam aos sons emitindo luz, que passeava pelos fios. Como o Festival foi realizado no SESI da Av. Paulista, em São Paulo, ele foi colocado estrategicamente na frente do prédio, separado da calçada e da rua por um vidro.
Os carros passavam e os fios acompanhavam o movimento sonoro. E as pessoas iam até lá, gritavam e batiam palmas esperando os fios responderem.
Outros, pro delírio das crianças e desespero dos monitores, faziam sons quando estimulados por alguém. Refiro-me especificamente a uma obra que infelizmente esqueci o nome e não consegui encontrar (ajuda?) mas era uma circunferência sensível ao toque das pessoas, que emitia sons, e podia-se até mesmo produzir uma música eletrônica.
Será que a interação com o espaço através dos sons encontra seu espaço lúdico só em instalações e obras de arte?
Será que não saímos do nosso cotidiano sonoro se não formos estimulados?
Como fazer alguma coisa fora da estrutura do que já foi feito?
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