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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ruído diegético

Não percebemos muito bem o meio sonoro. Schafer já escreveu que aprendemos a ignorar os 'ruídos', e percebemos somente que um ruído definitivamente existe e está atuando no ambiente quando ele não faz 'parte da diegese', não é um elemento do dia-a-dia.
Os sons cotidianos e frequentes ressaltam quando param. Ou quando o som pertence a outro lugar. Parece uma questão quase cinematográfica.


Fica aqui um exemplo do "Era uma vez no Oeste", dirigido por Sergio Leoni, que traduz isso.





sábado, 17 de julho de 2010

Imersão e apercepção

“Uma das funções sociais mais importantes do cinema é criar um equilíbrio entre o homem e a aparelho. O cinema não realiza essa tarefa apenas pelo modo com que o homem se representa diante do aparelho, mas pelo modo com que ele representa o mundo, graças a esse aparelho. Através dos seus grandes planos, de sua ênfase sobre pormenores ocultos dos objetos que nos são familiares, e de sua investigação dos ambientes mais vulgares sob a direção genial da objetiva, o cinema faz-nos vislumbrar, por um lado, os mil condicionamentos que determinam nossa existência, e por outro assegura-nos um grande e insuspeitado espaço de liberdade.” (BENJAMIN, 1996)
           
O assistir imagens em movimento acompanhadas por sons: uma caverna escura, com uma fonte de luz que reproduz em uma parede imagens em movimento do mundo exterior, que tem seus sons ecoados dentro da caverna, parecendo sair das próprias imagens. Para Arlindo Machado (1997), no mito da caverna de Platão, o mundo dentro da caverna não é um produto do mundo exterior de luzes, mas também um mundo construído e modificado pelos forjadores. Baudry (apud Machado 1997, 43) discorre que os efeitos ideológicos produzidos pelo aparato técnico da sala de cinema – o projetor, a sala escura e a tela – completa a mise en scène da caverna, com imersão do espectador ao mundo apresentado através das imagens na tela. Na sala de projeção as perturbações visuais e auditivas não provenientes do filme são atenuadas, colaborando para um isolamento do espectador. A fluidez do filme está nesse convite à imersão, para qual os sons têm grande importância.
Desde as primeiras projeções cinematográficas, notou-se necessária a ambientação sonora para melhor imersão do espectador na narrativa. Desde os primórdios do cinema havia o desejo e a tentativa de unir o som às imagens da tela: narradores, dublagem ao vivo atrás das telas, partituras específicas para serem tocadas junto a determinados filmes, dentre outros. A presença de sons referentes à imagem sempre foi requerida, também no cinema silencioso.
O som no audiovisual não deve ser entendido ou tratado somente como um acessório, mas também um membro que faz parte de um todo orgânico e responsivo. O sonoro também traz “uma nova dimensão da imagem visual, um novo componente”, o som faz ver na imagem algo que não surge livremente (DELEUZE, 2007. p. 269.). Variadas formas de construção sonora conseguem levar informações importantes ao espectador, não somente através da maneira clara do diálogo, mas também através de outros elementos sonoros. Os componentes sonoros de uma trilha sonora podem ser divididos em ambiências, falas, ruídos, efeitos e música, e podem ser mais ou menos distinguidos entre uns e os outros. Todos os componentes sonoros são misturados, onde um é controlado pelo outro, formando a ilusão de unidade sonora. Todos esses elementos podem ser independentes entre si, suprirem-se ou se transformarem (DELEUZE, 2007): e a parceria com a imagem ganha vários sentidos conforme o momento.

BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. A Idéia do Cinema. (José Lino Grünnewald, org.) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996. Texto originalmente publicado em 1955.


DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Editora Brasiliense, 2007.
MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas e Pós-cinemas. 1ª edição. Coleção Campo Imagético. Campinas: Editora Papirus, 1997.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Era uma vez uma estréia

Depois de um longo (porém apertado) processo, a estréia fica a algumas horas.
Fiz o som direto e a edição de som do Ocos!, direção do Pedro Garrafa. Se o som direto colocava vários 'sons atrás da orelha', a edição colocava uma paisagem sonora inteira!


A edição foi realizada da maneira mais rápida e eficiente o possível. Deixei para atrás alguns perfeccionismos, pois isso demandava tempo. Percebi depois que muitas coisas não eram 'perfeccionismos'.
O curta foi exibido no auditório do Centro Britânico no Brasil, em Pinheiros - bairro de São Paulo. Não houve tempo de eu conseguir algum outro estúdio para escutar o som, e isso me fez passar muita ansiedade. Ouvir o que se faz em outros lugares é sempre necessário, para que não ocorram surpresas.

Na estréia ocorreu tudo bem, com uma projeção em DVD. Alguns ruídos e alguns defeitos que não me agradavam na minha ilha de edição de som nem sequer deram as caras. Porém percebi que ainda tenho o mal da dinâmica de volumes - não pela falta, mas pelo excesso.

Em meu antigo emprego trabalhávamos mais com cinema, o que permite uma dinâmica de volumes maior. Creio também que pela minha formação eu procure essas camadas de intensidade, com o medo de criar uma imensa parede chapada de sons, mas ainda tenho que treinar a dinâmica para DVD.

Passei a automação de volume várias vezes, até que me lembrei do 'fator DVD'... decidi então ouvir tudo novamente com um volume de reprodução mais baixo, para aumentar a intensidade de algumas coisas e fechar mais essa perspectiva. Muitas coisas que eu fiz também invadiam a fronteira da mixagem, mas foi preciso - já que não haveria um processo posterior (mundo do baixo orçamento).

Não ficou do jeito que eu desejava. Mas acho que nunca fica.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Controle do som no audiovisual

Quando o som no audiovisual sai do controle, tanto quanto na captação quanto na reprodução, podemos ter um técnico de som demitido. Um exemplo (quase) clássico de um erro foi um caso de dezembro de 2009, que o som do microfone de certo jornalista "vazou" e foi ao ar. Ou um exemplo simples, quando em uma captação de som para um filme um carro passa buzinando quando o ator fala uma frase.


Novamente trazendo a questão das características sonoras, os sons estão presentes e se difundem: um som não desejado pode atrapalhar outro que é desejado, não importa o direcionamento do microfone. Já na imagem, o enquadramento da câmera toma conta do recorte. Por isso o espaço acusticamente planejado de um estúdio e das mantas e tecidos  para captação de som direto.

A questão do controle no som direto e na pós-produção de som é importantíssima para o resultado final ficar bom, ou minimamente aceitável - visto que uma fala ininteligível (dentre muitas outras coisas relativas ao som) pode despertar o espectador, retirando-o do filme.

 O som deve ser captado o mais claro possível para chegar na pós e as ambiências e efeitos adicionados darem maior espacialização do lugar e terem sua intensidade controlada. É também na edição de som que os planos ganham sequência temporal, os cortes da montagem são ressaltados ou escondidos - tudo para dar impressão de uma unidade do filme ou vídeo, organizados em planos pela decupagem, gravados em uma sequência específica. E é também o controle da intensidade de volume, reverberação e outros efeitos que fazem a obra ter uma estrutura audiovisual - de acordo com a proposta estética da realização como um todo.

Esse controle não acontece no dia-a-dia. A linguagem audiovisual pede esse controle para que ocorra a imersão do espectador; e também não podemos 'mixar' o mundo.